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"Por que motivo continuam os homens a escrever poesia?"
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césar santos |
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Democratização da poesia ou banalização da palavra? No bairro lisboeta de Alfama, um poeta e pintor italiano dedica-se a cobrir as paredes com textos poéticos |
Sérgio Almeida
"Em tempos como estes, de usura, há algo de inquietante e de escandaloso no mistério gratuito da poesia. Por que continuam os homens a escrever poesia? E por que continuam outros homens, desrazoavelmente, a escutá-la?" A perplexidade de Manuel António Pina , manifestada numa das suas crónicas diárias do " Jornal de Notícias ", encontra a sua máxima expressão hoje, Dia Mundial da Poesia.
Distante do olhar das massas durante o resto do ano, a poesia sai à rua ao longo do dia, através de largas dezenas de iniciativas espalhadas de norte a sul do país. São recitais, concertos ou tertúlias, mas também leituras encenadas e homenagens, que em comum têm um objectivo assumido dessacralizar o género que, se não é a expressão máxima do génio literário português, como afirmou Eugénio, pelo menos "é a expressão máxima do pensamento português", defende o poeta Rui Lage. "Se a poesia serve para reflectir sobre a natureza humana e para responder a inquietudes essenciais, então será lícito pensar que ocupa o lugar da filosofia na vida nacional", conclui o autor do recente "Revólver".
Com as edições de autor (reais ou encapotadas) e os inesgotáveis fóruns virtuais, editar ou divulgar poesia nunca foi tão fácil como hoje. Um sinal de democratização ou, pelo contrário, uma deterioração da palavra poética? Autor, entre outros títulos, de "Esqueletos leiloados" e "Os bastardos de Deus", Humberto Rocha é da opinião que, antes de mais, se torna necessário definir o que é, afinal, a poesia "Quando se tem um curioso povo que entende por poesia o fado vadio, onde 'ser humano' rima com 'Senhor Germano', estão criados os ingredientes para toda a espécie de equívocos".
Também A Dasilva O. - poeta, editor e livreiro que há mais de 25 anos faz da contestação do estado poético o seu modo de vida - não se deixa impressionar pela profusão de edições, recitais e colectivos poéticos. "Hoje toda a gente parece encharcada de sentimentos poéticos mas é tudo silicone. A poesia deve ser uma actividade secreta, própria das catacumbas", sentencia.
Crítico da "masturbação colectiva" em que se tornaram os saraus de poesia, o mentor da lendária Rádio Caos assegura vender apenas "literatura biológica", ou seja, "sem falsificação de conteúdos e liberta de insecticidas". Economicamente falando, tudo seria mais fácil, admite A. Dasilva O. sem rebuço, se "aceitasse os cheques em branco" que muitos candidatos a autores enviam na esperança da ansiada publicação.
Embora "deva estar acessível como o oxigénio", a poesia jamais deixará de ser um género minoritário, garante Humberto Rocha, porque "não é de leitura linear, requer sensibilidade cultural e uma digestão lenta incompatível com os deliciosos pratos de fast-food disponíveis em todos os cantos e esquinas".
As limitações óbvias do mercado - as vendas médias dos livros de poesia situam-se nas duas centenas de exemplares - não impedem a existência de editoras que centram a sua actividade no género. É o caso da Cosmorama, projecto criado pelo poeta José Rui Teixeira em 2004 que "assume o registo da pluralidade como uma actividade coerente". Com o lucro a representar uma miragem, é "o amor maior pelo acontecimento poético" que permite que a Cosmorama "subsista e teime em crescer", mesmo que a "um ritmo próprio e com uma maturação lenta". A publicação de livros de Agustina Bessa-Luís e Valter Hugo Mãe é o mais recente exemplo de uma estratégia editorial que assenta, antes de mais, na confiança que nela depositam um núcleo restrito de autores, bem como os livreiros e a gráfica Papelmunde.
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